Como relatei, minhas primeiras experiências aqui na Índia foram bastante diferentes de tudo o que eu já havia visto/conhecido, um tremendo choque cultural, tenho que admitir que isso me fez olhar a Índia com certo preconceito....
Mas, após estas 5 semanas por aqui, me propus a ver tudo isso com outros olhos e então comecei a perceber melhor suas cores, seu povo, seus olhares, seus sorrisos, seus bichos e percebi que tudo isso superam em muito a sua pobreza.
Descobri um povo que tem orgulho de se vestir diariamente como se fossem Reis e Rainhas, tudo muito colorido e brilhante, como se nascessem para brilhar, para tornar este mundo mais colorido. Talvez seja por isso que eles estão sempre sorrindo independente da sua condição social ou financeira. Até sua culinária tem um ar de sedução, com seu cheiro e gosto forte, temperos que fazem você suar (literalmente :)), mas ao mesmo tempo levam você a salivar de puro prazer. Os indianos parecem não ter máscaras, não disfarçam, isso os torna um pouco “abusados”, porém até isso a gente acaba achando interessante, eles simplesmente fazem o que eles querem sem meias palavras, não há caras e bocas.
Todos os indianos parecem ser felizes, a espiritualidade é tão forte que crêem na resignação como expressão maior de sua fé. Claro que trabalham e lutam, mas sem revolta com as condições que a vida os impõe.
Essa serenidade está em tudo, nas saudações Namastê (O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você), nas paisagens, no colorido; mulheres de pé no chão, simples - simples mas vestidas com cores e brilhos e cheias de adornos -, nos templos antiquíssimos, nos rostos. É pura poesia de contrastes e sente-se que têm orgulho disso.
Agora estou me dando conta de que a Índia é MARAVILHOSA, estou começando a me apaixonar por esta terra, começando a ficar dominada pela vontade de trazer um pedaço de tudo que vejo, de tudo que estou vivendo, vontade de absorver esse estado de espírito particular que paira sobre tudo.
Em meio a minha ânsia de descobrir cada vez mais sobre a Índia, eu acabei achando um poema escrito em 1953 por Cecília Meireles, ela esteve por aqui e também foi seduzida por este país maravilhoso. No poema abaixo ela fala da cidade de Jaipur, no norte da Índia...
“(…)
Adeus, Jaipur.
Adeus letras do observatório,
pulseiras de prata de mulheres que vendem tangerinas
pelo crepúsculo.
Adeus, fogareiros de almôndegas,
adeus, tarde morna de erva-doce, canela e rosa,
cravo, pistache, açafrão.
Adeus, cores.
Adeus, Jaipur, sandálias, véus,
macio vento de marfim.
Adeus, astrólogo.
Muitos deuses sobre o Palácio de Vento.
(Onde eu devia morar!)
Sobre o Palácio de Vento meus adeuses: pombos esvoaçantes.
Meus adeuses: rouxinóis cantores.
Meus adeuses: nuvens desenroladas.
Meus adeuses: luas, sóis, estrelas cometas mirando-te.
Mirando-te e partindo.
Jaipur, Jaipur.”
Namastê.
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